Da reinserção à actualidade

Texto da autoria de Jorge Martins para o Simplesmente Briosa em 2007

G) De 1984 a 2007

Dá-se a consolidação do regime democrático e vão-se corrigindo os excessos da Revolução. Como corolário, Portugal entra na CEE (mais tarde UE) em 1986.
Essa adesão é acompanhada do afluxo de grandes meios financeiros, que promovem o crescimento económico, a modernização das infraestruturas de transportes e comunicações e a melhoria do nível de vida da população. Prossegue, assim, a terciarização da economia.
Esta cresce continuamente até 2000. Porém, no início deste século, o ciclo económico inverte-se e a crise entra no vocabulário dos cidadãos.
Entretanto, fecha-se o “ciclo do Império”, com a devolução de Macau à China e a independência de Timor-leste.
O crescimento das cidades e das classes médias urbanas produz alterações profundas nos hábitos e costumes dos portugueses. O aumento do poder de compra gera uma onda consumista, que atinge o expoente máximo nos últimos anos do século XX.
A televisão generaliza-se e passa a transmitir os principais eventos desportivos. Com o aparecimento das privadas e do Cabo, a oferta televisiva é cada vez maior. Surgem os telemóveis, a Internet e toda uma panóplia de novos meios audiovisuais. Diversificam-se os lazeres e as ofertas cultural e turística.
Coimbra continua a crescer: engloba cada vez mais áreas periféricas e a sua área de influência próxima alarga-se a vários concelhos vizinhos. A população ultrapassa os 100 mil habitantes, embora muitos não sejam conimbricenses “de gema”. Os serviços assumem cada vez mais importância no emprego, enquanto que a indústria vai-se afundando, com o encerramento de várias fábricas emblemáticas da cidade, especialmente a partir de 2000. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as grandes superfícies e definha o comércio tradicional.
O centro histórico perde população e vai-se, progressivamente, despovoando. Surgem novos centros da cidade (Celas, Solum, Vale das Flores).
No Ensino Superior, verifica-se a explosão das universidades privadas e dos politécnicos, que existem, agora, em todas as capitais de distrito e noutras cidades médias. Ao mesmo tempo, generalizam-se os mestrados e os doutoramentos.
A Universidade de Coimbra vê aumentar o número de estudantes (mais de 20 mil na actualidade, maioritariamente do sexo feminino), o que obriga à criação de novos pólos universitários na cidade. Apesar de albergar cada vez mais alunos, a instituição vai perdendo prestígio. A imagem que passa (por vezes, injustamente) é a de privilegiar um saber teórico, desfasado das realidades do Mundo actual e sem ligação ao meio circundante, em contraste com o dinamismo e a inserção regional dos novos estabelecimentos públicos entretanto criados. Entretanto, perde o monopólio na própria urbe, onde é criada a universidade Vasco da Gama e os institutos Bissaya Barreto e Miguel Torga. Não surpreende, assim, que a percentagem de governantes licenciados pela Universidade de Coimbra diminua a olhos vistos.
Os estudantes constituem um corpo cada vez mais heterogéneo. Muitos dispõem de instrumentos de mobilidade que lhes permitem deslocar-se, com frequência, às terras de origem, em especial ao fim-de-semana.
Também o desporto conhece profundas mudanças, beneficiando de uma mentalidade mais aberta e menos provinciana. Assim, a nível internacional, depois de uma “travessia no deserto”, nos anos 70, o nosso futebol recupera prestígio a nível internacional.
Nas selecções, destaque para os dois “Mundiais” de juniores conquistados (1989 e 1991) e outros títulos mundiais e europeus das equipas nacionais mais jovens. Por sua vez, a selecção principal começa a ser “cliente” habitual das fases finais das grandes competições, conseguindo um 3º lugar no “Euro 2000” e terminando o “Mundial” de 2006 na 4ª posição. Falha, porém, a vitória no “Euro 2004”, como anfitriã, ao perder na “final” com a Grécia.
A nível de clubes, o destaque vai para o FC Porto, que, após perder a final da Taça das Taças, em 1984, conquista duas Taças dos Campeões (1987 e 2004), uma Taça UEFA (2003), uma Supertaça Europeia (1987) e duas Taças Intercontinentais (1987 e 2004). Por seu turno, o Benfica foi duas vezes finalista da Taça dos Campeões (1988 e 1990) e o Sporting da Taça UEFA (2005). O próprio Boavista atinge as meias-finais da Taça UEFA, em 2003.
No futebol nacional, o FC Porto impõe-se claramente aos rivais lisboetas e assegura a hegemonia nas competições internas. Ao mesmo tempo, o sistema mediático privilegia cada vez mais os três “grandes” e reduz todos os outros clubes a meros comparsas. Paradoxalmente, o equilíbrio competitivo tende a ser maior.
Em 1993, o “acórdão Bosman” liberaliza as transferências no espaço europeu, produzindo uma “revolução” no futebol mundial. A modalidade mercantiliza-se e as transferências atingem valores astronómicos. Não há jogador que não tenha empresário. A rotação dos futebolistas é cada vez maior e a maioria dos clubes não consegue segurar os seus atletas por muito tempo. Graças a essa nova realidade, os melhores jogadores nacionais actuam no estrangeiro e alguns, como Figo e Cristiano Ronaldo, adquirem o estatuto de ídolos globais.
Como corolário desta evolução, é criada a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), que marca a autonomia dos principais emblemas relativamente às instâncias federativas e associativas. O novo organismo passa a organizar os Campeonatos da 1ª e 2ª Ligas (futura Liga de Honra).
A televisão assume um papel cada vez maior, constituindo as receitas televisivas, na maioria dos casos, a principal fonte de financiamento da maioria dos clubes. As jornadas da Liga principal prolongam-se por quatro ou cinco dias. Em Portugal, constitui o principal factor (embora não o único) da diminuição drástica do número de espectadores presentes nos estádios.
Ao mesmo tempo, avolumam-se os problemas financeiros das colectividades de menor dimensão, que levam à exclusão de algumas das competições profissionais (Salgueiros, Farense e Alverca são os casos mais mediáticos).
Para a Briosa, este período inicia-se com o regresso à “casa-mãe”, em 1984, na sequência de um protocolo assinado por Jorge Anjinho e Ricardo Roque, então presidentes do CAC e da DG da AAC. No entanto, pela sua natureza profissional e, principalmente, para evitar que o futebol fique refém de eventuais convulsões políticas no seio da Academia, a sua reintegração faz-se com o estatuto (já previsto para alguns grupos culturais) de organismo autónomo e não de secção desportiva. Nasce, assim, oOrganismo Autónomo de Futebol (OAF) da Académica.
Sintomaticamente, a sede não regressa à Rua Padre António Vieira, mantendo-se nos Arcos do Jardim. Mais tarde, passa para o Pavilhão Jorge Anjinho, situado na Rua Infanta Dª Maria, à Solum.
Com a reintegração na “casa-mãe”, o futebol academista passa a ter acesso a subsídios destinados à associação estudantil, o que, juntamente com a concessão do Bingo, contribui para a melhoria da sua situação financeira.
O duplo regresso (ao seio da AAC e à 1ª Divisão) reconcilia os académicos com a Briosa, gerando algum entusiasmo e mobilização na cidade e na Academia. Porém, nada é como dantes: para muitos, a “nova” Académica não se compara à “velha” e, apesar de alguma simpatia por ela, mantém-se fiéis a um dos três “grandes”. Fora de Coimbra e dos meios académicos, é vista apenas como mais um clube, tal como sucedia com o CAC.
Em mais uma concessão aos novos tempos, são contratados os primeiros estrangeiros não lusófonos.
Após quatro épocas consecutivas no escalão principal, a Briosa volta a cair na 2ª Divisão em 1987/88, numa despromoção marcada pelo tristemente célebre “caso N’Dinga”, jogador congolês irregularmente inscrito pelo V.Guimarães. O desfecho desfavorável da batalha jurídica encetada pelos seus dirigentes mostra que a instituição já não tem a influência de outros tempos.
Segue-se uma verdadeira “descida aos infernos”. A Académica arrasta-se durante nove anos no escalão secundário. Numa dessas épocas, em 1994/95, quase cai na 2ª Divisão B: apenas assegura a permanência na derradeira jornada. A cidade e a Academia vão-se paulatinamente afastando da Briosa e o número de presenças no estádio diminui. A maioria dos sócios e simpatizantes que se mantém fiéis à Académica acaba por adoptar, igualmente, um dos três “grandes”. Como corolário dos insucessos desportivos, os apoios vão escasseando e as finanças voltam a “entrar no vermelho”.
Em 1996/97, dá-se, finalmente, o tão ansiado retorno ao escalão principal. Mas é “Sol de pouca dura”: depois de uma manutenção muito sofrida na época seguinte, nova descida um ano depois, após uma temporada para esquecer. Consequentemente, o entusiasmo despertado pela subida rapidamente se esboroa. Após mais três épocas na Liga de Honra, novo regresso à Liga principal, em 2001/02. Mas, financeiramente, as coisas vão de mal a pior: as dívidas acumulam-se e os salários em atraso cifram-se em vários meses. A continuidade da instituição está em risco.
Por outro lado, o retorno à “casa-mãe” não acaba com as dificuldades para treinar em condições e a equipa principal chega a preparar os seus jogos no pavilhão. Uma situação que suscita críticas recorrentes dos técnicos que vão passando pela Académica. Com o apoio da Câmara Municipal, começa a construir-se um centro de treinos, no Bolão.
Entretanto, é criada a equipa B, para melhor rentabilizar o investimento na formação. Dela saem alguns jogadores que, mais tarde, acabam por integrar o plantel principal. Todavia, a sua manutenção revela-se insustentável para a depauperada tesouraria da instituição e, dois anos depois, é extinta.
Afastado o espectro da falência, a Briosa mantém-se ininterruptamente no escalão maior do futebol nacional desde 2002/03, o que perfaz seis épocas consecutivas. Algo que já não sucedia desde os anos 70. Contudo, os resultados são medíocres e, ano após ano, só consegue garantir a permanência numa das duas últimas rondas. Esse imenso sofrimento vai deixando os adeptos e associados cada vez mais frustrados e com os “nervos em franja”.
A inauguração do novo Estádio Cidade de Coimbra (construído para o “Euro 2004”) e o acordo assinado com a Câmara Municipal e a TBZ parece criar condições para uma maior estabilidade financeira, mas o passivo cresce. Actualmente, continua muito alto, o que condiciona a capacidade de investimento da instituição.
Entretanto, a rotação de jogadores atinge um volume extremamente elevado, sinónimo de uma grande taxa de contratações falhadas. O número de jogadores estrangeiros aumenta, mas a qualidade de muitos é mais que duvidosa. Nas duas últimas temporadas, chegam a constituir a maioria do plantel. Esta época, o seu número diminui, mas o seu peso na equipa continua a ser grande.
Por outro lado, cada vez há menos espectadores nos jogos e o divórcio com a cidade e com a Academia acentua-se. Isto apesar de a Académica quase ter deixado de ter concorrência em Coimbra: o despovoamento da Baixa, a quebra do comércio tradicional e a perda de identidade de bairros periféricos (como os Olivais, a Arregaça ou Santa Clara) levam à agonia do União, que acaba por cair no Distrital.
Após alguns impasses, são finalmente inauguradas as novas instalações do Bolão. Mas a sua designação gera polémica: para uns, é a Academia Briosa XXI ou “Dolce Vita”; para outros, o Complexo de Treinos Dr. Francisco Soares.
Essa divergência é paradigmática do impasse identitário que já dura há mais de 30 anos e se reflecte em fortes clivagens internas: para os primeiros, há que adaptar a Briosa aos novos tempos e às novas circunstâncias, assumindo resolutamente o profissionalismo e relegando para segundo plano a ligação à Academia; para os segundos, o actual caminho conduz à descaracterização da instituição e há que regressar aos valores tradicionais, reforçando a ligação ao meio estudantil. Quem tem razão? Provavelmente, ambos. Agora, resta saber se será possível conciliá-las, sem prolongar a indefinição.
No fundo, a questão que se coloca é esta: o que quer (ou, antes, o que pode) ser aAcadémica do futuro? Têm a palavra os nossos leitores.

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